Aqui expresso minhas impressões sobre os acontecimentos
recentes no país. Não escrevo um manifesto, apenas um discurso retórico e, por
vezes, metafórico para “soltar” as coisas que penso e que estão presas em mim.
Críticas, vaias, xingamentos serão bem-vindos.
Me sinto contente por viver um momento de mobilização
social, por mais que acredite que há muitas confusões de objetivos, princípios
e coerência em muitas pessoas que estão nas ruas.
De fato é um absurdo o valor da passagem de ônibus,
principalmente pelas condições em que somos submetidos nestes transportes em
horários de pico. Além disso, o sistema viário das principais cidades
brasileiras está caótico e os deslocamentos estão cada vez mais demorados.
Ademais, a quantidade de carros aumenta consideravelmente pois o sistema
econômico nos empurra para a compra destas máquinas. Com isso as pessoas andam
cada vez mais de carro, pois não há uma consciência ecológica social. Como
somos regidos pelo sistema consumista, é mais barato andar de carro do que de
ônibus em alguns trajetos. É lamentável não desenvolvermos um sistema
metroviário eficiente. Seria a solução para muita coisa.
E falando em ecologia, me parece muito mais urgente gritar
e manifestar-se contra o corte das árvores do que os 20 centavos do ônibus. Mas
uma coisa não exclui a outra, embora o “papel dinheiro” seja algo simbólico e a
vegetação algo real e de fato indispensável.
Vivemos em um sistema econômico que tende a alienar e
controlar a população. Não há nos bancos o “papel dinheiro” respectivo à
receita financeira que é declarada. Ou seja, se todos tirassem dinheiro dos
bancos eles quebrariam. Além disso, nosso sistema econômico é baseado na
dívida. Então se cria uma sociedade que pensa no “papel dinheiro” e se esquece do recurso. O recurso é o que faz com que vivamos. Não comemos, bebemos ou
respiramos dinheiro...
Nessas manifestações ouvi várias críticas sobre o sistema
consumista. Que bom! Mas uma minoria confusa resolveu depredar ônibus e
destruir lixeiras... Na minha opinião quebrar um ônibus público é como brigar
com um familiar e quebrar uma vidraça da sua casa. Terei que comprar uma
vidraça nova e isso alimentará o sistema consumista. Mas isso foi algo bem
pontual e um detalhe das manifestações agigantado pela mídia. Só que ouvi
muitas críticas à mídia. A mídia se sustenta pela audiência. Se a audiência é
grande terá patrocínio. Ela busca audiência. Se há um descontentamento com o
“comportamento” da mídia, porque se continua a “consumi-la”? Critica-se a Rede
Bola, mas ela não é abandonada, principalmente quando há um jogo da Seleção.
Opa, mas se critica a copa no Brasil... E se vaia a presidente dentro do
estádio e antes do jogo... Há vários gritos de “não queremos copa no Brasil”
dentro dos estádios... Hum... Achei também tão triste grande parte da população
ansiosa para ouvir o pronunciamento da presidente na Rede Bola. Ouvi esperanças
por coisas absurdas, como pessoas que esperavam que ela interferisse nos outros
dois poderes. E essa história de impeachment... A chama é melhor que a estrela?
Trocar a presidente eleita democraticamente pelo vice, do mesmo partido do
senhor tão criticado Presidente do Senado? Acho que a falta de estudo político
no ensino de base no Brasil está bem evidente agora. E as críticas ao Sr.
Prefeito, reeleito por mais de 65% das pessoas em Porto Alegre... Será que ninguém
destes 65% está nas ruas? E onde estavam seus pensamentos e investigações
políticas em outubro do ano passado? Além disso, confusões como culpar
presidente por aumentar passagem municipal, culpar prefeito pela ação da
Polícia Militar (do estado)... Pode ser estrela, chama, passarinho, sol, todos
são eleitos democraticamente e vivemos em um estado de suposta democracia. Esse
papo de impeachment me parece um jogo discreto destes P...s. Um duelo de
passarinho contra estrela, talvez...
Fora isso, ouço críticas tão duras para as bolsas de auxílio
às classes baixas da sociedade brasileira, mas quase nunca ouço indignações
para os auxílios milionários oferecidos aos “grandes” empresários brasileiros.
Equiparar a economia é reforçar ela... Acabar com a miséria é oportunizar de
forma discreta um crescimento econômico social. Dentro deste sistema econômico
mundial que vivemos, esta é a ação mais adequada, penso...
Acredito que a mudança ou revolução que tanto se fala deve
vir de dentro. Não deve ser apenas pontual ou local. São constantes as críticas
contra a corrupção política, mas há de se combater primeiro as corrupções
pessoais, e estas são diversas. Os pequenos crimes cometidos, as pequenas
falhas de caráter e traições, o constante descuido com o meio ambiente... Os
jeitinhos e “mutretas” das pessoas... Além disso, acredito ser importante observar
o que se veste, o que se come, o que se bebe, além das drogas usadas. Conheço a
indústria têxtil e sei que há bastante exploração na produção de muitas peças
“de marca”. Isso ocorre com os calçados também... Fora os produtos que vêm de
outros países, principalmente as potências canhoto-demagogas... E nossa comida
vem de onde? Há sofrimento e exploração de algum ser na “confecção” de nossos
bonitos pratos? E como está a agricultura no nosso país? Além disso, o que
andamos bebendo? Estranho, o Ministério da Saúde não adverte sobre o uso de
algumas substâncias presentes em certas bebidas... E aos que usam drogas
“ilícitas”, é interessante se perguntar de onde está vindo este produto. Há
sofrimento, injustiça, violência antes deste produto chegar nas mãos de quem o
usa? Ainda, como está a “alimentação” cultural de cada um? Quantos livros
lemos, em quantas exposições vamos, quantos concertos presenciamos, quantos
filmes e peças de teatro assistimos? E não só quantos, mais quais... Qual a
importância da cultura e da reflexão em nossas vidas? Estamos vivendo uma
“anemia” cultural...
Falemos mais da PEC 37, da legalização ou não do aborto, da
legalização ou não de drogas, de leis de preservação do meio-ambiente, da não
interferência das religiões nas decisões de nosso país laico, da tolerância
zero contra todos os preconceitos, da reforma do sistema prisional, da
valorização da saúde pública, cultura e educação do país. Além disso, acabar
com a impunidade contra as corrupções políticas e de funcionários públicos.
Observemos a hermenêutica dos textos e falas que nos cercam,
reflitamos sobre nosso conhecimento tácito e agreguemos novos conhecimentos
sempre.
Por fim, eu grito nas ruas, mas depois vou para casa e grito
na frente do espelho. Minha manifestação é constante e autorreflexiva. E espero
que nunca seja momentânea.
Alexandre Fritzen da Rocha
(Porto Alegre, 22 de junho de 2013)