terça-feira, 1 de abril de 2014

Senhores 65%

Fui informado que realizaram uma pesquisa no Brasil onde constatou-se que cerca de 65% dos homens consideram que mulheres que usam roupas curtas merecem ser “atacadas”. Abismado com a informação resolvi investigar a veracidade da chocante informação em diversos sites de notícia na internet. De fato a pesquisa, realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), parece ser verossímil. Os pesquisadores informaram que alguns pesquisados consideram que o uso de roupas “provocantes” instiga o ato de estupro, ou que se as mulheres se comportassem de forma diferente o número de estupros seria reduzido.
Penso que o título destas notícias poderia ser diferente: “65% dos homens brasileiros retomam comportamentos primatas. Quando vêm uma fêmea com roupa curta, por descontrole, precisam exercer relação sexual forçada, visto que o ato de procriar é mais forte que sua razão”. Ou ainda, “65% dos homens apresentam comportamento doentio e irracional, e não se dão conta de sua perturbação psicológica, culpando suas vítimas por seus atos criminosos”.
Interessante pensar que estes 65% foram paridos e criados por uma fêmea. Muitos possivelmente tenham irmãs, filhas, primas, tias, amigas. O mesmo gênero humano que eles referiram ter obrigação de agir de um modo específico. E que modo específico seria esse? Existe alguma cartilha para o comportamento “adequado” da mulher na sociedade? Ou um manual: “Fêmea, como você deve se portar diante de um macho”. E se as suas filhas, Senhores 65%, estivessem usando roupas curtas e por conta disso fossem violentadas, quais seriam o seus discursos? Ou se elas sofressem estupros coletivos por terem efetuado este suposto comportamento “inadequado”. Qual seriam as reações dos senhores?
Para mim é muito triste ouvir este tipo de notícia em pleno século XXI. Justificar uma violência culpando a vítima. Constato que nossa sociedade está doente. Está raquítica de razão e de gentileza. É aculturada e burra. Influenciável e violenta. E violentada... E as manifestações de 2013? Acabaram? Aquele circo todo foi desmontado? Voltamos a inanição.
Ainda vivemos em um país com um sistema que oprime a mulher. E embora existam inúmeros discursos pró equiparação de direitos de gênero, uma pesquisa dessas demonstra que se faz necessário uma urgente conscientização e educação sexual e sociológica em nossa nação. Uma ampliação dos estudos históricos, com foco no século XX, momento onde a mulher passou a “existir” em âmbito social. Um estudo um pouco mais laico, talvez. E um plenário um pouco mais laico também, e menos criminoso, mas isso é outro assunto, embora muito próximo deste. Acredito que se promovêssemos uma educação focada nos quatro pilares da UNESCO (Aprender a conhecer, Aprender a fazer, APRENDER A VIVER COM OS OUTROS, Aprender a ser) já estaríamos um pouco mais longe da era primata.
Mas enquanto isso, minhas amigas, sugiro que para viverem seguras nesta selva tupiniquim utilizem ferramentas tipo a “Rapex”, aquela camisinha antiestupro inventada pela sulafricana Sonette Ehslers. Eu ficaria particularmente interessado em ler sobre uma pesquisa que informasse que 90% dos estupradores tiveram seu pênis destruído pela ferramenta de Ehslers.

Alexandre Fritzen da Rocha
(Nova Petrópolis, 30 de março de 2014)